Impactos Sazonais e Desafios no Emprego
No Rio Grande do Norte, o mercado de trabalho formal apresentou um saldo negativo de 2.221 vagas em fevereiro de 2026, conforme dados do Novo Caged. Este resultado evidencia um movimento de ajuste que afeta setores específicos da economia potiguar. Nesse período, foram registradas 19.084 admissões e 21.305 desligamentos, interrompendo a sequência de recuperação observada em janeiro e contrariando o desempenho nacional, que apresentou criação líquida de empregos no mesmo intervalo de tempo.
A entressafra no setor de fruticultura impactou negativamente a geração de empregos na agricultura, embora se espere que essa situação se reverta com a chegada da nova safra até meados deste ano. A imagem do setor agrícola é preocupante, com a agropecuária liderando as perdas, contabilizando um saldo negativo de 2.152 vagas. A indústria, por sua vez, fechou 1.012 postos de trabalho, seguida pela construção civil, que teve um saldo de -92.
De acordo com Hugo Fonseca, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, essa retração é um fenômeno sazonal típico no início do ano. “Esse resultado reflete oscilações comuns após o período de maior atividade do final do ano, quando muitas empresas realizam ajustes em seus quadros, especialmente nos setores industrial e agropecuário,” afirmou.
Condições Estruturais e Sazonais
O recuo no campo está intimamente ligado ao ciclo produtivo. Segundo Fonseca, “o resultado está alinhado a períodos de menor intensidade de contratações entre as etapas de safra, um fenômeno esperado na produção agrícola.” Essa variação é um reflexo direto das características sazonais do setor.
Roberto Serquiz, presidente da Fiern, mencionou que o desempenho negativo aponta para problemas estruturais na economia potiguar. “O resultado se desvia do crescimento observado no Brasil, indicando que o estado enfrenta um descolamento em relação ao cenário nacional, o que sugere uma menor capacidade de resposta às condições econômicas favoráveis,” destacou.
Serquiz apontou a indústria como a mais afetada, com retrações significativas em setores como petróleo e gás (-1.055 vagas) e refino de açúcar (-292). Ele concluiu que isso acentua a urgência por políticas de estímulo à produção.
Por outro lado, William Figueiredo, economista da Fecomércio RN, enfatiza que as demissões estão restritas a atividades específicas, não indicando uma deterioração generalizada da economia. “É uma questão sazonal. Não há motivos para alarde,” comentou.
Perspectivas e Desempenho dos Setores
Figueiredo menciona que a queda no número de vagas encontra explicação nas entressafras do melão, que resultou em mais de 1.300 dispensas, além da cadeia sucroalcooleira. “Essas duas atividades são responsáveis por boa parte do resultado negativo do mês,” explicou.
Os cortes foram mais relevantes em municípios fortemente envolvidos com essas atividades, como Mossoró, Apodi e Baraúna, no caso do melão, e cidades da região leste, como Baía Formosa e Goianinha, vinculadas à produção de cana-de-açúcar.
Apesar do saldo geral negativo, os setores de serviços e comércio conseguiram evitar um impacto ainda mais severo. O setor de serviços, em particular, se destacou na criação de 861 novas vagas, impulsionado por segmentos de administração pública, saúde, educação e alimentação. O comércio também se destacou, abrindo 175 postos formais.
Hugo Fonseca ressaltou a importância do setor terciário na economia do estado. “O setor de serviços se consolidou como o principal motor de geração de empregos neste período,” afirmou.
Desafios e Expectativas Futuras
Esses dados apontam uma concentração na geração de empregos em áreas urbanas, com municípios como Natal, Parnamirim e Extremoz liderando essa criação, impulsionados principalmente pelos setores de comércio e serviços. Esse quadro evidencia a dependência do estado de atividades urbanas, enquanto regiões voltadas para a produção agrícola e industrial enfrentam mais volatilidade ao longo do ano.
Para o setor produtivo, há uma expectativa de recuperação gradual nos próximos meses, com a retomada dos ciclos agrícolas e uma possível recuperação da atividade industrial. No entanto, economistas alertam que o desempenho de fevereiro sinaliza a urgência por uma diversificação econômica e maior resiliência da economia potiguar frente a choques sazonais e externos.
