O Papel da Força de Vontade na Luta Contra a Obesidade
A crença de que a obesidade se resume a falta de autocontrole e responsabilidade pessoal está longe de refletir a realidade. Em um estudo recente publicado na revista The Lancet, 80% dos entrevistados nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia afirmaram que a obesidade poderia ser totalmente evitada apenas com escolhas saudáveis de estilo de vida. Contudo, muitos especialistas em saúde discordam dessa visão simplista.
Bini Suresh, uma nutricionista com duas décadas de experiência, critica essa ideia. “É frustrante ver pessoas motivadas e informadas lutando para controlar seu peso, mesmo com esforço contínuo”, afirma. Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso, ecoa essa preocupação: “A obesidade é uma questão complexa. Reduzir tudo a ‘comer menos e se exercitar mais’ ignora a realidade de diversos fatores que influenciam o peso”.
A realidade é que a luta contra a obesidade é muitas vezes uma batalha desproporcional, onde a biologia desempenha um papel crucial. O governo britânico, reconhecendo a gravidade do problema, implementou uma nova regulamentação que proíbe a publicidade de alimentos não saudáveis na TV antes das 21h e em plataformas digitais. No entanto, muitos acreditam que essas medidas são insuficientes diante da epidemia de obesidade, que atinge um a cada quatro adultos no Reino Unido.
A Influência da Biologia na Obesidade
A professora Sadaf Farooqi, endocrinologista da Universidade de Cambridge, destaca que fatores genéticos têm um impacto significativo no ganho de peso. “Gene variáveis podem afetar o modo como o cérebro responde à saciedade e à fome”, explica. O gene MC4R, por exemplo, afeta diretamente a sensação de saciedade e está presente em cerca de 20% da população mundial.
Além disso, outros genes influenciam o metabolismo, ou seja, a eficiência com que queimamos energia. Isso significa que algumas pessoas podem ganhar mais peso mesmo consumindo as mesmas calorias que outras. Farooqi ressalta que existem milhares de genes que podem impactar o peso, e, atualmente, apenas uma fração deles é bem compreendida. A chegada de novos medicamentos para perda de peso é um avanço importante, pois encontram formas de combater os mecanismos biológicos que dificultam a perda de peso.
O Efeito Sanfona e a Teoria do Set Point
Ainda que os fatores biológicos sejam significativos, eles não explicam completamente a complexidade da obesidade. Andrew Jenkinson, cirurgião bariátrico e autor, introduz o conceito de set point — um peso que o corpo considera ideal. “O corpo age como um termostato, tentando manter esse peso”, diz. Quando uma pessoa perde peso rapidamente, o corpo responde aumentando o apetite e diminuindo o gasto energético, dificultando a manutenção do novo peso.
Esse fenômeno explica o efeito sanfona. Quando indivíduos são submetidos a dietas rigorosas, o corpo reage como se estivesse passando por um período de fome, resultando em um intenso desejo alimentar. A leptina, um hormônio relacionado à gordura corporal, desempenha um papel central nesse processo. Muitas vezes, seu sinal é sobreposto pela insulina elevada, dificultando a percepção do corpo sobre a quantidade de gordura armazenada.
O Ambiente Obesogênico e Suas Consequências
A crescente obesidade no Reino Unido também pode ser atribuída a um ambiente obesogênico — um contexto onde a alimentação não saudável é facilmente acessível e promovida. Além da disponibilidade de alimentos ultraprocessados e marketing agressivo, a falta de oportunidades para atividade física contribui para o aumento das taxas de obesidade. Suresh observa que o ambiente em que vivemos muitas vezes está desenhado para estimular o consumo excessivo.
Certas políticas públicas, como a restrição à publicidade de alimentos não saudáveis, são vistas como passos importantes, mas limitadas. Alice Wiseman, diretora de saúde pública, argumenta que, embora a responsabilidade individual tenha seu espaço, a mudança ambiental é crucial para lidar com a epidemia de obesidade. “As escolhas alimentares de um indivíduo são influenciadas pelo ambiente ao seu redor”, comenta.
Reavaliando a Responsabilidade Pessoal
A discussão sobre a responsabilidade individual no contexto da obesidade é complexa. Enquanto alguns especialistas, como Frayn, defendem a ideia de que a força de vontade não deve ser descartada, outros, como Suresh, argumentam que o foco deve ser voltado para a compreensão dos fatores biológicos e sociais que contribuem para o ganho de peso. A força de vontade, segundo Suresh, deve ser vista como parte de um quadro mais amplo e não o único fator determinante.
O caminho para a mudança envolve um sistema de apoio que ajude as pessoas a reconhecerem os limites da força de vontade, promovendo uma relação mais saudável com a alimentação. A psicóloga Eleanor Bryant sugere que o entendimento sobre os diferentes tipos de força de vontade pode auxiliar. Ser flexível em relação a escolhas alimentares e não se prender a um padrão rígido pode ser mais benéfico para o sucesso na manutenção de um peso saudável.
Assim, ao se replantear a discussão em torno da força de vontade, pode-se criar um apoio mais compassivo e fundamentado na ciência, proporcionando melhores chances de sucesso a longo prazo para aqueles que enfrentam a obesidade.
