A Dualidade da Adolescência no Longa ‘Enzo’
O diretor Laurent Cantet, conhecido por sua aclamada obra ‘Entre os Muros da Escola’, enfrentou um desafio pessoal ao se dedicar ao seu último projeto, ‘Enzo’. Apesar de sua batalha contra um câncer agressivo, que o impediu de iniciar as filmagens antes de sua morte em abril de 2024, Cantet deixou a responsabilidade do projeto nas mãos de seu assistente, Robin Campillo, renomado por ‘120 Batimentos por Minuto’. Essa transição de direção traz à tona uma narrativa profunda e relevante sobre a adolescência na sociedade contemporânea.
‘Enzo’ conta a história de um jovem de 16 anos que vive em uma casa confortável no Sul da França. No entanto, há uma dissonância clara entre seu estilo de vida e suas expectativas pessoais. O protagonista se vê em um conflito constante, onde a busca por identidade se choca com as obrigações sociais esperadas de seu meio. Ao contrário de seus colegas que aspiram a carreiras tradicionais e bem remuneradas, Enzo decide deixar a escola e trabalhar como pedreiro em um canteiro de obras, uma escolha que choca sua família.
Os pais de Enzo, acreditando que essa decisão seja apenas uma fase típica da adolescência, aceitam a escolha do filho, mas, como a história revela, suas expectativas estão prestes a ser desafiadas. Essa jornada juvenil ecoa o espírito de rebeldia visto em clássicos como ‘Cada Um Vive Como Quer’, de 1970, no qual um personagem similar abandona sua vida confortável para buscar liberdade em um trabalho braçal. No entanto, a rebeldia de Enzo é apresentada em um contexto menos extremo, refletindo as inseguranças e dores de uma geração que luta para encontrar seu lugar no mundo.
A Construção de Uma Nova Identidade
O Enzo interpretado por Eloy Pohu é um jovem desajeitado, que inicialmente parece indiferente ao ambiente de trabalho. Essa indiferença muda quando ele inicia uma amizade com Vlad, um imigrante ucraniano que não deseja retornar ao seu país devido à guerra com a Rússia. Essa conexão não apenas humaniza seu personagem, mas também desencadeia uma série de descobertas sobre sexualidade e consciência sociopolítica. O envolvimento de Enzo com Vlad oferece uma nova perspectiva sobre questões geopolíticas que, até então, eram distantes de sua realidade.
A relação entre os dois personagens revela um Enzo em transformação, que começa a questionar não apenas seu papel na sociedade, mas também suas próprias inseguranças. A narrativa se desenvolve em torno das condições de vida no canteiro de obras e das repercussões da guerra, trazendo à tona a dualidade de experiências masculinas e um olhar menos convencional sobre a sexualidade. O filme se destaca por sua abordagem naturalista, desafiando normas estabelecidas sobre como o desejo e a identidade são discutidos.
Uma Reflexão Sobre a Juventude
‘Enzo’ é uma obra que vai além da simples exploração do amor adolescente. Campillo permite a inserção de elementos romantizantes, mas invariavelmente enfatiza a aridez da realidade que envolve o protagonista. Essa aspereza não prejudica a ternura que permeia a obra, criando um retrato afetuoso e complexo da juventude.
A interpretação de Pohu captura a essência de um jovem em formação, cuja falta de experiência é refletida em sua atuação. Essa crueza confere autenticidade ao personagem, que, como uma pedra bruta, está apenas começando a se moldar em meio aos desafios impostos pela vida. A profundidade de ‘Enzo’ reside também em como o protagonista impacta aqueles ao seu redor, gerando uma reflexão sobre a culpa burguesa que seu pai desconhecia até então.
Campillo, ao assumir a direção, demonstra respeito pela visão original de Cantet, enquanto traz seu próprio vigor à narrativa. Ele entrega um filme coeso, que reflete a paixão e o compromisso com uma história que é, ao mesmo tempo, uma homenagem e uma nova interpretação de um projeto muitas vezes esquecido. ‘Enzo’ não é apenas uma história sobre a adolescência; é um convite a revisitar os dilemas universais de identidade, desejo e rebeldia, com um olhar sensível para as complexidades da vida jovem.
