Medidas emergenciais diante da violência em manifestações
O governo francês enfrenta o desafio de controlar os episódios de violência e saques registrados durante os protestos contra o alto custo de vida no último fim de semana. Em resposta, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião com líderes das principais centrais sindicais para debater medidas de segurança e atender às reivindicações dos estudantes do ensino médio.
Na sequência de uma segunda noite consecutiva com toque de recolher, cidades como Marselha e Toulouse mantêm restrições rigorosas. Em Marselha, a medida está em vigor desde às 20h de terça-feira (20) e seguirá até sexta-feira (23). Toulouse adotou toque de recolher noturno até domingo (25), abrangendo a região central da cidade.
Fortalecimento da segurança em Paris
Em Paris, áreas estratégicas como o Fórum Les Halles e a Praça da República ficaram quase desertas durante a madrugada. Um forte esquema de segurança foi implementado, com policiais e gendarmes patrulhando as ruas e orientando os pedestres a se retirarem. Helicópteros com holofotes iluminavam a região, reforçando o controle e a vigilância do local.
Diálogo com sindicatos e foco na liberdade de manifestação
O encontro marcado para esta quarta-feira (21) entre o premiê Sébastien Lecornu e os representantes das cinco principais centrais sindicais visa assegurar a “indispensável liberdade de manifestação”, um direito que, segundo o governo, tem sido afetado por atos violentos durante os protestos. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também participará das discussões, que ocorrem em meio à preparação para novas mobilizações convocadas para sábado (24) pelos coletes amarelos e estudantes, além de uma manifestação prevista para 5 de novembro.
Apesar da importância da pauta, líderes sindicais expressaram insatisfação pela ausência de representantes dos estudantes do ensino médio na reunião. Entre as reivindicações dos secundaristas estão mudanças nos horários escolares, reposição de professores ausentes, melhorias nos prédios e revisão da plataforma Parcoursup, frequentemente criticada.
Reivindicações e resposta do governo
Sophie Binet, secretária-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), destacou em entrevista que o premiê deve atender às demandas dos jovens e sindicatos, reconhecendo uma “revolta legítima e imensa” no país. Ela enfatizou a necessidade de Lecornu ouvir a mobilização social e responder às reivindicações, começando pelo diálogo com os estudantes.
O chefe de governo anunciou que apresentará as primeiras medidas direcionadas aos estudantes no início da próxima semana, com possibilidade de incorporação dessas propostas no debate orçamentário do Parlamento.
Contexto dos protestos e consequências
Os protestos do último sábado (17) foram marcados por uma onda de violência e saques que desviaram o foco das reivindicações originais. Cerca de três mil estabelecimentos comerciais foram alvo de depredações e furtos, além de ataques a prédios públicos, como a prefeitura de Limoges, incendiada no centro do país.
O balanço oficial do governo, divulgado no domingo (18), indicou 2.397 detenções, 997 policiais e gendarmes feridos, sete em estado grave, e cerca de 20 civis gravemente machucados. Um manifestante faleceu após uma parada cardiorrespiratória durante a marcha em Paris.
Demandas específicas de estudantes e sindicatos
Além das reivindicações estudantis por € 100 bilhões para infraestrutura escolar e a extinção da plataforma Parcoursup, as centrais sindicais buscam aumentos salariais e a revisão do orçamento governamental para 2027, que consideram prejudicial aos serviços públicos.
O primeiro-ministro afirmou que a reunião abordará não apenas a ordem pública, mas também fará uma análise detalhada sobre orçamento, poder de compra e preços dos combustíveis, destacando que reflexões poderão ser retomadas no final da discussão orçamentária prevista para dezembro.
Debate sobre repressão e segurança nas manifestações
Os sindicatos pretendem discutir a repressão policial durante os protestos, ressaltando sua experiência em organizar e proteger manifestantes. Eles argumentam que os serviços de ordem sindicais contribuem para evitar a infiltração de grupos violentos nos atos.
Sophie Binet defendeu que mobilizações sociais devem ser respondidas com soluções políticas, não com repressão. O presidente da central CFTC, Cyril Chabanier, afirmou que os sindicatos conseguem barrar grupos radicais, como os black blocs, dentro das manifestações, embora reconheça que não têm controle total sobre atos de vandalismo em áreas próximas.
Apesar dos riscos, a convocação para a mobilização de 5 de novembro será mantida. Laurent Escure, secretário-geral da Unsa, destacou a importância de os sindicatos oferecerem uma saída pacífica para o descontentamento social, sem permitir que a violência comprometa esse caminho.
