Crescimento das candidaturas trans nas eleições brasileiras
A participação de pessoas trans nas eleições brasileiras atingiu um patamar histórico. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) identificou 116 candidaturas trans em todo o país, o maior número já registrado pela entidade. No Rio Grande do Norte, três candidaturas se destacam: Jéssica Elias, do PSOL, e Tiago Silva, do PSTU, disputam vagas na Assembleia Legislativa, enquanto Thabatta Pimenta, do PV, concorre a uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Esses três nomes representam 2,61% das candidaturas trans mapeadas nacionalmente e colocam o Rio Grande do Norte na 15ª posição entre os estados brasileiros, empatado com Alagoas, Amazonas e Mato Grosso. Na região Nordeste, o RN fica atrás apenas da Bahia, com dez candidaturas, e do Ceará, com oito, acompanhando Sergipe, que tem quatro. Outros estados do Nordeste contabilizam números menores, como Maranhão, Paraíba e Pernambuco.
Contexto regional e crescimento nacional
Embora três candidaturas possam parecer uma parcela pequena no universo eleitoral potiguar, o número ganha relevância ao ser analisado no contexto regional. O Nordeste reúne 32 candidaturas trans em 2026, distribuídas pelos nove estados, com Bahia e Ceará concentrando mais da metade dessas candidaturas.
O crescimento da presença trans nas urnas é constante e expressivo. A série histórica da ANTRA mostra que, em 2014, eram sete candidaturas trans; em 2018, 54; em 2022, 79; e em 2026, 116. Esse aumento representa um crescimento acumulado de 1.540% em 12 anos e 45,6% em relação a 2022.
Apesar disso, a ANTRA aponta que o número oficial divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é inferior ao real, uma vez que o TSE registrou 107 candidaturas trans, enquanto a entidade encontrou casos adicionais por meio de cruzamento de dados com redes sociais e outras plataformas. A disparidade inclui situações de pessoas cisgêneras que se declararam trans e de pessoas trans que não declararam sua identidade de gênero nos registros eleitorais.
Perfil das candidaturas e recomendações da ANTRA
O levantamento da ANTRA revela que a maioria das candidaturas trans é composta por mulheres trans e travestis, que representam 89,6% do total, enquanto homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias somam o restante. Em termos raciais, 68,7% das candidaturas são de pessoas pretas e pardas, evidenciando a diversidade racial dentro desse grupo.
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Políticamente, a maior parte das candidaturas está vinculada a partidos de esquerda ou centro-esquerda, correspondendo a 76,5% do total. Esse dado indica uma concentração das pautas trans dentro desse espectro político.
Para ampliar a visibilidade das candidaturas trans, a ANTRA recomenda modernizações nos sistemas eleitorais, como a atualização dos campos de identificação de gênero e nome social, melhorias no portal DivulgaCandContas e a criação de uma lista pública centralizada com candidaturas autodeclaradas trans. Essas medidas visam garantir maior transparência e facilitar o acesso do eleitorado às informações.
Projetos distintos das candidaturas no Rio Grande do Norte
No Rio Grande do Norte, as candidaturas de Jéssica Elias, Tiago Silva e Thabatta Pimenta refletem trajetórias e propostas políticas variadas, apesar de compartilharem a condição de pessoas trans concorrendo a cargos eletivos.
Jéssica Elias, de 46 anos, enfermeira e candidata pelo PSOL, concentra sua campanha na juventude, propondo a criação de cursos em escolas estaduais em parceria com empresas para preparar jovens para o mercado de trabalho. Sua trajetória política começou no movimento estudantil e inclui uma candidatura anterior à Câmara Municipal de Macaíba.
Tiago Silva, do PSTU, apresenta uma plataforma socialista que articula direitos trabalhistas, combate à opressão e defesa dos serviços públicos. Entre suas pautas estão cotas para pessoas trans em universidades estaduais e concursos públicos, políticas de qualificação para a população LGBTQIAPN+, garantia do nome social sem burocracia, atendimento integral pelo SUS e o direito ao aborto legal.
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Thabatta Pimenta, candidata do PV à Câmara dos Deputados, traz uma experiência política ligada ao interior e à luta pelos direitos das pessoas com deficiência e famílias atípicas. Eleita vereadora em Carnaúba dos Dantas, foi a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira em uma Câmara Municipal potiguar. Sua candidatura destaca a necessidade de políticas de apoio às mães atípicas e a defesa da realidade do interior no Congresso Nacional.
Desafios e significado da presença trans na política
Thabatta também enfrentou recentemente episódios de perseguição durante agendas de campanha no interior do estado, o que reforça os desafios de segurança enfrentados por candidaturas trans. A candidata enfatiza que a presença de pessoas trans em espaços de poder amplia o imaginário político e cria novas possibilidades para outras mulheres trans.
Essa diversidade de projetos e trajetórias desloca o debate sobre candidaturas trans para além da identidade, evidenciando que essas candidaturas representam diferentes perspectivas sobre políticas públicas e os problemas do país.
A ANTRA destaca que, apesar do crescimento, ainda há barreiras estruturais que dificultam a representação efetiva. A entidade defende a inclusão das mulheres trans nas cotas eleitorais femininas, acesso proporcional aos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, tempo de propaganda, protocolos contra violência política e maior transparência nos dados eleitorais.
Em 2026, o Brasil registra 116 candidaturas trans, enquanto o Rio Grande do Norte conta com três. A disputa eleitoral revela, portanto, um processo em construção, marcado pela luta pela ocupação dos espaços institucionais e pela ampliação das pautas e representações no cenário político.
