Desigualdade e Renda no Rio Grande do Norte
No ano de 2025, o Rio Grande do Norte conquistou pelo terceiro ano consecutivo a posição de maior renda domiciliar per capita do Nordeste, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O rendimento médio no estado alcançou R$ 1.779, marcando um crescimento de 9,41% em comparação ao ano anterior, superando a média nacional. Contudo, essa conquista revela uma contradição: o estado continua sendo um dos mais desiguais do Brasil, com um Índice de Gini de 0,540, o terceiro maior do país.
Arthur Néo, economista e vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon/RN), ressalta que a liderança na renda média não é sinônimo de uma distribuição justa da riqueza. “Uma renda média elevada não implica que essa renda esteja bem distribuída. O RN apresenta uma forte concentração de renda em grupos e regiões específicas, especialmente ligadas ao setor público e aposentadorias de maior valor”, afirma.
Os dados do IBGE indicam que os 10% mais ricos do estado detêm, em média, 16,3 vezes mais renda do que os 40% mais pobres. Enquanto a camada mais vulnerável apresenta um rendimento médio mensal de R$ 754, o grupo mais abastado alcança R$ 7.897. O 1% mais rico ainda se destaca, com uma renda domiciliar per capita média de R$ 20.047.
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Dependência Económica e Renda
Néo destaca que a economia potiguar é excessivamente dependente de fontes de renda que não estão diretamente ligadas à atividade produtiva privada. “A participação de rendas não vinculadas ao mercado produtivo, como salários do funcionalismo público, aposentadorias e pensões, é muito elevada”, explica. Essa dependência é mais evidente em municípios do interior, onde aposentadorias e benefícios sociais sustentam o comércio local e a circulação de renda.
O levantamento revela que 33,6% da renda domiciliar per capita do Rio Grande do Norte provêm de aposentadorias, pensões e programas sociais. Desses, 24% correspondem a aposentadorias, enquanto 6,3% originam-se de programas de transferência de renda. Para Néo, a questão não está na existência desses mecanismos, mas na dependência excessiva deles como motores da economia. “Quando uma parte significativa da renda está atrelada a transferências governamentais, isso demonstra que a economia local não gera emprego e renda suficientes por meio da atividade produtiva”, comenta.
Renda do Trabalho e Desafios do Mercado
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Outro dado relevante é a participação reduzida do trabalho na composição da renda das famílias potiguares. Em 2025, apenas 66,4% da renda domiciliar per capita decorreu de rendimentos do trabalho, representando o terceiro menor percentual do Brasil, atrás apenas de Piauí e Alagoas. Néo aponta que isso reflete as limitações históricas do mercado de trabalho no estado. “Esse cenário evidencia que o mercado de trabalho no RN apresenta baixa capacidade de geração de renda”, argumenta.
Ele explica que a combinação de alta informalidade, baixa produtividade e concentração da economia em atividades de menor valor agregado agrava a situação. “O que se observa é uma economia pouco dinâmica, incapaz de gerar empregos qualificados e de maior valor”, complementa.
Embora o estado tenha registrados avanços em setores como energia renovável, turismo, comércio e serviços, Néo acredita que o modelo econômico ainda não consegue criar um número suficiente de empregos de qualidade para diminuir as desigualdades. “O desafio está em não apenas crescer, mas em crescer gerando empregos formais, qualificados e bem remunerados”, enfatiza.
Rumo à Diversificação e Educação
Arthur Néo acredita que o Rio Grande do Norte precisa investir na diversificação produtiva, na industrialização e no fortalecimento de pequenas e médias empresas para democratizar o acesso à renda. “É fundamental transformar crescimento em mobilidade social, permitindo que mais pessoas se integrem efetivamente à geração de riqueza do estado”, afirma. Ele propõe que investimentos em educação básica, qualificação profissional, infraestrutura logística e redução da informalidade são cruciais para mitigar a desigualdade estrutural.
A PNAD Contínua também revela o impacto da escolaridade sobre a renda no estado. Em 2025, trabalhadores com ensino superior completo receberam, em média, R$ 6.613 por mês, valor três vezes superior ao rendimento médio de quem possui apenas ensino médio, estimado em R$ 2.127. Enquanto isso, trabalhadores sem instrução apresentaram um rendimento médio de R$ 939, com uma queda de 15,63% em relação ao ano anterior.
Apesar das desigualdades, o estado registrou recordes na massa de rendimento domiciliar, que alcançou R$ 6,145 bilhões, e no rendimento médio do trabalho, que ultrapassou pela primeira vez a marca dos R$ 3 mil mensais. Arthur Néo conclui que esses avanços indicam o potencial econômico do estado, mas ressaltam o desafio que persiste: “Hoje, o objetivo do RN não é apenas aumentar a renda, mas democratizar o acesso a essa renda e às oportunidades econômicas”.
